Sobre o tal do "amanhã"

11 Novembro, 2017

O ser-humano tem a estranha mania de se achar imortal. Não vou caracterizá-la como “boa” ou “ruim” por esses meros adjetivos não expressarem, de fato, o significado desse ato. Como tudo tem um nível de estranheza aos meus olhos, vou atribuir essa definição mais uma vez, se me permitirem.

Passamos a vida toda procurando certezas em cada palavra, cada ato, cada pessoa. Mas, a única que nós possuímos, resolvemos ignorar, esquecer, encenar uma realidade onde ela não exista. “Sempre vai ter o amanhã, né?”

Ontem, uma amiga me disse a seguinte frase: “Por que a gente se exercita, come bem, se incomoda com pequenas coisas se podemos morrer amanhã?” Aí já viu, foi só deitar a cabeça no travesseiro que a minha mente já sussurrou: “Não vai dormir não, meuamô! Ainda temos uma pergunta a ser respondida!”

Por quê?! É verdade que todos estamos expostos às surpresas da vida, e a primeira conclusão que cheguei foi essa: nós esquecemos. 99% do tempo, nosso cérebro apaga essa informação da nossa mente. Antes eu achava isso errado, tentava me lembrar o tempo todo que a vida não é eterna para ninguém. Até eu perceber que eu estava me machucando ao fazer isso.

Às vezes, esquecer faz bem. É como “esquecer” daquele momento triste, o famoso deixar o passado no passado. Só que a lembrança ainda está lá e, naquele 1% do tempo, você tem que lembrar. Faz parte de você e renegar isso só vai te fazer sofrer ainda mais. Assim como ficar lembrando o tempo inteiro.

Acho que a morte segue a mesma lógica, só que muda o ditado para “deixar o futuro no futuro”. E é por isso que nos cuidamos e fazemos o que fazemos: não vivemos em função do futuro. Sabe aquele famoso conselho de não viver remoendo o passado? Por que com futuro deveria ser diferente?

Eu vou morrer, você vai morrer. E tudo bem. Next page, please! O tabu que atribuíram à morte deve ser quebrado e, mais do que isso, deve ser encarada com naturalidade. É como você querer dar o de rebelde e tentar parar o trem em movimento se jogando na frente dos trilhos. Você será atropelado, o trem vai continuar a se mover. É melhor entrar, se acomodar em uma cadeira e viajar com ele. Vai por mim, é muito mais emocionante.

Eu não vou mudar a minha rotina simplesmente porque vou morrer. Eu quero dançar ao som de Beyoncé até não sentir mais minhas pernas, quero tomar milk-shake e sentir o cérebro congelar. Eu quero entrar em um avião e viajar o mundo, quero colher amoras no quintal e tirar foto das flores que estão nascendo no jardim.

Eu quero ser feliz e observar o pôr do sol, imaginando como ele vai nascer no próximo dia. Porque sempre há um amanhã, certo? :)

 

Ana Laura Marins

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All comments (2)
  • viviane_angela
    12 Novembro, 2017 at 0:29

    Aí meu Deus, mais é uma linda mesmo. Fico maravilhada com suas palavras e pensamentos. Obrigada por trazer palavras tão simoles e ao mesmo tempo […] Read MoreAí meu Deus, mais é uma linda mesmo. Fico maravilhada com suas palavras e pensamentos. Obrigada por trazer palavras tão simoles e ao mesmo tempo tão lindas para o nosso dia a dia. Ameiiii mais uma vez. Read Less

    Reply
    • Ana Laura Marins
      @viviane_angela
      20 Dezembro, 2017 at 11:24

      Obrigadaaa! Adorei saber que você gostou da crônica!

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